Apresentação do artigo “Awareness and Willingness to Use Pre-exposure Prophylaxis (PrEP) Among Men Who Have Sex with Men and Transgender Women in Brazil”

O artigo Conhecimento e Aceitabilidade para Usar a Profilaxia Pré-exposição (PrEP) entre Homens que Fazem Sexo com Homens e Mulheres Transgênero no Brasil[1], publicado na revista AIDS and Behavior, tem como objetivo apresentar números relativos ao conhecimento e aceitabilidade da PrEP durante o estudo da PrEP Brasil, assim como discutir fatores associados a estes resultados. É tomado como base o intervalo entre 1 de abril de 2014 e 28 de julho de 2015, período de entrada dos voluntários do estudo no Rio de Janeiro, pela Fiocruz, e em dois locais em São Paulo – o Centro de Referência e Treinamento em DST/AIDS (CRT-SP) e a USP.[2]

Um total de 1187 indivíduos compareceram aos centros de pesquisa para participar do PrEP Brasil, dos quais 95,3% eram homens e 4,7%, mulheres trans. A idade média foi de 29 anos. 43,8% se autodeclararam brancos e 63,4% tinham 12 anos de educação ou mais. Não houve diferença com respeito à idade, cor de pele/raça ou resultado do teste rápido de HIV entre homens e mulheres trans. No entanto, comparados aos homens, as mulheres trans possuíam menos escolaridade e eram menos propensas a ter parceiro fixo. A Fiocruz foi o local que mais recrutou mulheres trans (48), em comparação com a CRT-SP (6) e USP (2). A prevalência geral de HIV entre os voluntários durante o processo de seleção para participar no estudo foi de 9,8% (n= 111/1135).

As entrevistas foram realizadas em dois períodos distintos, com oito meses sucessivos cada (abril 2014-novembro 2014 e dezembro 2014-julho 2015). Uma pergunta media a auto avaliação sobre o risco de se infectar pelo HIV: “Qual a sua chance de contrair HIV no próximo ano?”. As opções de resposta eram: nenhuma (0%), baixa, alguma (50%), alta, ou certa (100%). A testagem de HIV no ano anterior também era questionada (sim; não). Já o comportamento de risco era avaliado pelas seguintes questões: número de relações anais sem camisinha nos últimos 12 meses; sexo anal com parceiros HIV-positivo nos últimos 12 meses; histórico de diagnósticos de DSTs nos últimos 12 meses.

A partir da questão “Eu não usaria camisinha caso fizesse a PrEP” buscou-se investigar se o uso da PrEP levaria a um comportamento compensatório, ou seja, se com a utilização da PrEP os usuários dispensariam outros métodos preventivos. 53,9% (n=526) discordaram totalmente da frase, 17,5% (n=171) discordaram parcialmente, 13,7% (n=134) nem concordaram nem discordaram, 10,9% (n=106) concordaram parcialmente e 3,9% (n=38) concordaram totalmente. A maioria, portanto, afirmou que não deixaria de usar camisinha se fizesse a PrEP.

Por sua vez, o conhecimento [awareness] e a aceitabilidade [willingness] da PrEP foi medido através de duas questões[3]: “você já ouviu falar na PrEP para prevenção ao HIV?” e “caso estivesse disponível através do SUS, você teria interesse em usar a PrEP para prevenir o HIV?”. 728 participantes (61,3%) afirmaram conhecer a PrEP e 975 (82,1%) demonstraram grande interesse em usá-la[4]. Apesar de nem todos conhecerem a PrEP antes da participação no estudo, foi demonstrado que a maioria demonstrou interesse em usá-la como método de prevenção. Além disso, 900 (75,8% do total) afirmaram que usariam a PrEP mesmo se tivessem que pagar por ela. O artigo traça ainda um perfil dos usuários que responderam positivamente às questões relativas a conhecimento prévio e aceitabilidade.

Fatores associados ao conhecimento prévio da PrEP foram: idade, tempo de estudo, local de participação no projeto, o período de inscrição no estudo e haver feito teste de HIV anteriormente[5]. O grupo da faixa etária entre 18 e 24 anos foi o que menos relatou conhecer a PrEP. Além disto, foi constatado que indivíduos auto avaliados como brancos e com maior tempo de estudo (12 anos ou mais) tendiam a conhecer mais a PrEP.

Um dos pontos mais ressaltados pelo artigo foi a necessidade de se elaborar estratégias para atingir as populações de homens que fazem sexo com homens e mulheres trans mais jovens e com menos estudo. Segundo os autores, é preciso aumentar o acesso à informação sobre a PrEP em indivíduos com esses perfis. Tal medida se mostra mais urgente por ser justamente este o grupo em que a epidemia de HIV mais tem crescido no Brasil.

Quanto à vontade de usar a PrEP, os fatores associados foram: o local, o período de inscrição no estudo, maior comportamento de risco, maior percepção de risco e haver relatado conhecimento prévio da PrEP.

Tanto em relação ao conhecimento prévio quanto à aceitabilidade, os participantes dos centros de estudo em São Paulo – CRT-SP e USP – tiveram percentual maior do que os da Fiocruz. Do mesmo modo, os números foram maiores também para os dois tópicos na segunda metade do estudo, entre dezembro 2014 e julho 2015. O artigo atribui este fato ao efeito do trabalho de divulgação da PrEP Brasil em redes sociais e em artigos divulgados em jornais e revistas.

Sobre estes resultados obtidos no estudo da PrEP Brasil, o artigo termina ressaltando três pontos:

  1. A diferença entre Rio de Janeiro e São Paulo quanto ao conhecimento e aceitabilidade da PrEP. A razão apontada é a própria motivação dos participantes ao irem aos locais do estudo. No Rio de Janeiro, a maioria dos voluntários (340/61,7%) foram convidados a participar do projeto ao se testarem para o HIV, seja na própria Fiocruz ou em uma ONG LGBT – a Arco-Íris – e uma unidade móvel de testagem. Já em São Paulo, a maioria dos indivíduos chegavam aos locais do estudo procurando diretamente participação na PrEP Brasil.
  2. A maior participação de mulheres trans na PrEP Brasil em relação a outros estudos com a PrEP. Em determinado estudo, o iPrEx, uma análise post hoc demonstrou uma menor aceitabilidade da PrEP entre mulheres trans. O artigo chama a atenção, com isto, à necessidade de projetos de demonstração específicos para mulheres trans capazes de atender às suas necessidades específicas.
  3. O fato de haver entre os participantes de diferentes projetos de demonstração com a PrEP um aumento de sexo sem camisinha e maior comportamento de risco. No estudo Partners PrEP (Inglaterra), também foi notado um aumento de sexo sem camisinha com outros parceiros além do fixo. No estudo da PrEP Brasil, dentre 975 indivíduos que reportaram disposição em usar a PrEP, 144 (14,8%) concordaram parcialmente ou totalmente da frase “Eu não usaria camisinha se fizesse a PrEP”. Segundo o artigo, o aumento do comportamento de risco premeditado por quem pretende fazer a PrEP pode funcionar como uma barreira de acesso. Isto por potencialmente reduzir a motivação de indivíduos procurarem ou persistirem fazendo a PrEP com receio de estigmatização. Além disto, este dado poderia causar um provável receio de médicos e especialistas em prescreverem a PrEP, o que potencialmente comprometeria a implementação e adesão à PrEP. No entanto, o artigo encoraja a dissociar o uso da PrEP e um julgamento sobre práticas sexuais. Como argumentação para isto, é afirmado como a PrEP deve ser focada em indivíduos com alto risco de adquirir HIV, e isto inclui mesmo aqueles que intencionalmente passem a não fazer uso consistente da camisinha.

Link para o abstract do artigo:  http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/27531461

[1] Awareness and Willingness to Use Pre-exposure Prophylaxis (PrEP) Among Men Who Have Sex with Men and Transgender Women in Brazil

[2] Em um segundo momento, o estudo foi ampliado para Porto Alegre e Manaus.

[3] Além da PrEP, foi questionado também o conhecimento e aceitabilidade de outros métodos preventivos, como camisinha, PEP e microbicida.

[4] Para a mesma pergunta, 150 (12,6%) responderam que teriam algum interesse, 45 (3,8%) pouco interesse e 17 (1,4%) nenhum interesse.

[5] O artigo aponta como causa desta ligação [ter se testado antes e conhecer a PrEP] o fato de indivíduos deste grupo possuírem maior percepção de risco e métodos de prevenção, assim como ao papel do aconselhamento que geralmente precede à realização dos testes de HIV.