Resumo do artigo sobre o estudo PrEP Brasil: “Alta e precoce adesão à PrEP entre homens que fazem sexo com homens (HSH) e mulheres trans em risco de infecção ao HIV: o projeto PrEP Brasil”

Título original: High pre-exposure prophylaxis uptake and early adherence among men who have sex with men and transgender women at risk for HIV Infection: the PrEP Brasil demonstration project.

PrEP Brasil é um estudo de 48 semanas avaliando o uso da combinação de emtricitabina e tenofovir (FTC/TDF ou Truvada®) para PrEP em três centros de referência de prevenção ao HIV no Rio de Janeiro e em São Paulo. Tais cidades brasileiras, além de possuírem importantes centros de pesquisa e tratamento, contam com grande número de novos casos de HIV, fato que torna a localização do estudo estratégica. Os centros que sediaram a PrEP Brasil foram o Instituto Nacional de Infectologia da Fundação Oswaldo Cruz (INI-Fiocruz) no Rio de Janeiro, a Universidade de São Paulo (USP) e o Centro de Referência e Treinamento em DST e AIDS (CRT-SP), ambas em São Paulo.[1]

O objetivo do estudo, além de avaliar a aceitação da PrEP no contexto específico da realidade brasileira, foi fornecer dados sólidos para demonstrar o custo-benefício e a viabilidade de se incorporar a PrEP gratuitamente pelo SUS, o sistema único de saúde.

Em sua primeira fase, indivíduos foram avaliados para participação no projeto entre 1 de abril de 2014 e 28 de julho de 2015. Os critérios de inclusão foram: pertencer ao sexo masculino no nascimento, ter 18 anos ou mais, ter feito sexo com outros homens ou mulheres trans nos últimos 12 meses, ser HIV negativo, morar na mesma cidade ou região metropolitana de onde acontece o estudo, 2 ou mais episódios de sexo anal sem camisinha, 2 ou mais episódios de sexo anal com um parceiro infectado pelo HIV ou histórico de doença sexualmente transmissível. Os voluntários foram acompanhados de 4 de junho de 2014 a 28 de julho de 2015 e a coleta de resultados terminou em 24 de agosto de 2015.

Os indivíduos se candidataram espontaneamente ou foram abordados em determinados locais quando procuravam teste rápido de HIV, profilaxia pós-exposição (PEP) ou serviços de saúde. Mesmo sem uma divulgação substancial, o número de participantes espontâneos a procurar algum dos centros da PrEP Brasil foi alto. Este dado já indica uma alta aceitação da PrEP por parte da comunidade alvo do estudo.

Durante a visita de pré-triagem, uma entrevista avaliou características demográficas, percepção de risco para o HIV, conhecimento prévio sobre a PrEP e outros métodos de prevenção. Na visita de triagem, os participantes eram informados sobre os procedimentos do estudo e o calendário de visitas. As avaliações de laboratório incluíam teste rápido de HIV, hepatite C e sífilis. Os potenciais participantes recebiam ainda explicações sobre os possiveis riscos e benefícios do FTC/TDF (o medicamento da PrEP), assim como a importância de seguir corretamente a ingestão dos comprimidos. Foi também oferecido aconselhamento sobre diminuição de risco de infecção de HIV e outras DSTs.

No total, 1270 indivíduos foram avaliados na visita de pré-triagem. Deste número, 517 (40,7%) foram considerados inelegíveis e 753 (59,3%) potencialmente elegíveis e convidados a participar da PrEP Brasil.  Destes, 450 participantes consentiram em participar do estudo (35,4% do total de 1270), sendo 89,9% homens gays e 5,3% mulheres trans. Apesar deste número modesto de 5,3%, a PrEP Brasil recebeu mais mulheres trans do que outros estudos semelhantes em outras partes do mundo.

A média de idade de participação foi de 30 anos. Dos 450 participantes, 180 (40%) eram moradores do Rio de Janeiro, possuíam pelo menos o ensino médio (74,4%) e relaram ter um parceiro fixo (56,4%). Foram detectadas DSTs previamente ao início do estudo – sífilis, gonorreia retal ou clamídia retal – em 20% dos participantes e 44,7% deles relataram ter feito sexo anal sem camisinha nos 3 meses anteriores ao ingresso no estudo.

Um grupo que chamou atenção especial no estudo foi o de HSH jovens. Em sua maioria, os participantes elegíveis, mas que terminaram não se inscrevendo no estudo pertenciam à faixa etária até 24 anos. Este é o grupo em que atualmente mais cresce o número de novos casos de HIV. Isto quer dizer que é preciso um esforço especial para alcançar esta faixa etária, através de um trabalho de conscientização sobre a percepção de risco do HIV e esclarecimentos sobre a PrEP. Outro dado relevante para o estudo foi constatar que a PrEP era em geral mais aceita por indivíduos que possuíam maior grau de escolaridade. Isto mostra que o esforço de implementação da PrEP deve se dirigir também àqueles que possuem menos estudo.

Sobre a adesão à PrEP, verificou-se através da análise sanguínea que 5,9% possuíam níveis de medicamento no sangue correspondentes a menos de 2 doses por semana, 15,6% tinham um nível correspondente a 2-3 doses/semana e 78,5% um nível correspondente a 4 ou mais doses por semana. Este último número indica uma alta aceitação da PrEP no contexto brasileiro.

De modo geral, observou-se ainda que a alta adesão à PrEP é relacionada com uma maior percepção de risco de contrair HIV. Ou seja, quanto mais o indivíduo possui consciência que seu comportamento sexual tende a envolver situações propícias ao contágio pelo HIV, mais existe disposição em usar a PrEP como método de prevenção. Tal dado reforça o impacto positivo e efetividade da PrEP, demonstrando nela uma ferramenta consistente de controle do HIV.

[1] É importante destacar que o projeto, posteriormente, passou a integrar também as cidades de Porto Alegre e Manaus.

Link para o abstract do artigo original: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/28418232