Resumo do artigo “Uma estimativa global da aceitabilidade da Profilaxia Pré-exposição ao HIV entre Homens que fazem sexo com Homens: uma revisão sistemática e metanálise”

(Título original: A Global Estimate of the Acceptability of Pre-exposure Prophylaxis for HIV Among Men Who have Sex with Men: A Systematic Review and Meta-analysis)

Escrito em colaboração com diversos autores, este artigo partiu de uma metanálise, ou seja, uma pesquisa coletando dados de artigos publicados anteriormente. Neste caso, foram consultados textos publicados em inglês entre julho de 2007 e julho de 2016. A busca se concentrou em trabalhos que abordassem a aceitabilidade da PrEP de acordo com diferentes perfis de homens que fazem sexo com homens (HSH). Os artigos analisados cobriram diversos estudos com a PrEP conduzidos em 19 países de 5 continentes, incluindo 33 países desenvolvidos e 12 países em desenvolvimento.

Como resultado geral, o artigo constatou a aceitabilidade da PrEP entre HSH variando entre 19,1 e 96,2%, com uma estimativa combinada [pooled estimate] de 57,8%. Percebeu-se, neste panorama, uma forte relação entre a aceitabilidade da PrEP e o seu preço. Se tomamos o parâmetro do custo, a aceitabilidade varia entre 46,1-61.0%, caso o acesso seja gratuito, e 14-36.8% se for necessário custeá-la.

Os fatores individuais mais associados à aceitabilidade da PrEP são:

• HSH que se consideram em risco de se infectar pelo HIV;
• Maior quantidade de parceiros sexuais e/ou número de relações;
• Conhecimento prévio da PrEP;
• Uso prévio da PEP (profilaxia pós-exposição) ou receberam outro tipo de cuidado relacionado ao HIV;
• Entre os mais jovens (18 e 25 anos);
• Maior nível de educação formal e poder aquisitivo.

O nível de aceitabilidade da PrEP, no entanto, não se distribui de maneira homogênea entre os HSH. Ele varia enormemente de acordo com a localização geográfica, cultura local, grupos étnicos e subpopulações. Mesmo dentro de um único país, há drásticas variações. A China, por exemplo, possui em Shangai um número de aceitabilidade de 19,1%, quase 3 vezes menos do que em Pequim, com 67,8%. Quanto às variações dentro de grupos de HSH, um estudo qualitativo nos Estados Unidos constatou que a aceitabilidade entre profissionais do sexo masculino é maior (65%) do que entre HSH em geral (48%).

Trinta estudos analisados pelos autores da metanálise discutiram fatores que facilitavam ou dificultavam a adesão da PrEP entre HSH. A conscientização sobre a eficácia da profilaxia foi central para a aceitabilidade, fator que sugere a importância de estratégias de divulgação como forma de aumentar o alcance da PrEP.

Outros itens importantes foram a localização dos centros provedores da PrEP e a provisão de outros tipos de prevenção ao HIV. Um dos fatores relevantes apontados neste artigo é o da alta aceitabilidade da PrEP entre HSH que já foram vítimas de violência sexual.

Por outro lado, dúvidas sobre a eficácia ou os efeitos-colaterais, assim como dificuldades para tomar as pílulas ou custeá-las foram fatores significantes para aqueles que não desejavam fazer a PrEP. Diferentes tipos de preconceitos por parte dos fornecedores da PrEP – como a falta de preparo para lidar a população de mulheres trans – e mesmo o estigma em relação aos usuários da PrEP também são fatores-chave que podem afastar potenciais interessados.

Uma questão central e ainda controversa sobre a PrEP diz respeito ao comportamento compensatório, ou seja, como o seu uso poderia fazer com que outros métodos de prevenção e cuidado sexuais sejam negligenciados. Por um lado, estudos como o iPrEx, que ocorreu em 11 cidades distribuídas em 3 continentes, não notaram mudanças relevantes no uso da camisinha por parte dos participantes. Uma recente metanálise, no entanto, concluiu o contrário, relatando que HSH que fazem a PrEP possuem 25,3 vezes mais chances de contrair gonorreia e 44,6 vezes mais chance de contraírem sífilis. Tais dados mostram que elaborar intervenções de conscientização sobre cuidados preventivos deverão fazer parte das campanhas de implementação da PrEP.

Link para o abstract: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/28176168